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O espírito de Betinho,

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Fonte: Jornal O Globo
 

Há exatos 23 anos, dia 9 de agosto de 1997, o Brasil também celebrava o Dia dos Pais, tal como a data de hoje. Porém, o país também tinha motivos para lamentar, pois quis o destino que nesse dia morresse o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, meu pai.

Naquele ano, o país inteiro estava mobilizado, por ele e pela Ação da Cidadania, ONG que ele fundou, para combater a fome. Seja por meio da campanha Natal Sem Fome ou cobrando do governo ações concretas, o importante era enfrentar um flagelo que há séculos nos envergonhava enquanto nação.

Vinte e três anos se passaram desde aquele Dia dos Pais. Infelizmente, o Betinho não viu o combate à fome virar política pública. Ele também não viu, em 2014, o Brasil sair do Mapa da Fome da ONU, e não está vendo o país voltar, rapidamente, para esse mesmo Mapa.

Em apenas dois anos, já eram 14,8 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, mais de 7% da população, sobrevivendo com menos de R$ 133,72 por mês, e a situação, infelizmente, não melhorou desde então. Na verdade, piorou e, para completar, a pandemia agravou ainda mais esta triste situação, principalmente para quem precisa lutar diariamente para sobreviver.

Para combater a fome, de março até este Dia dos Pais foram arrecadados mais de 5 mil toneladas de alimentos e materiais de limpeza para todos os estados brasileiros e o Distrito Federal. Junto com FAO, PMA, Unesco, CNBB, Sesc, Cepal, Acnur e Fiocruz distribuímos para mais de 2 milhões de pessoas o alimento que não deveria faltar num país tão rico em produção agrícola.

Isso, infelizmente, o Betinho também não está vendo. A solidariedade e a cidadania que ele semeou em vida continuam viva entre os brasileiros, mesmo agora no meio das piores adversidades que este país já viveu. E, sabemos, é necessário que esta onda de solidariedade e cidadania continue a guiar os brasileiros. Este é o maior legado que ele deixou e que a Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida continuará preservando.

É por isso que em outubro a campanha do Natal Sem Fome será lançada novamente em todo o Brasil. Causa imensa indignação perceber que, mesmo depois de 27 anos, ela ainda é necessária, como se não soubéssemos que é necessário fazer para erradicar de vez a fome do país.

Sempre me perguntam o que o Betinho diria ou faria caso voltasse hoje. Acho que primeiro ele indagaria, perplexo, se este país é, de fato, o Brasil que ele conhecia em 1997. Convencido de que os fatos recentes não são fake news, entraria na trincheira do combate à fome e, assim como a Ação da Cidadania, só sairia dela quando o Brasil sair, definitivamente, do Mapa da Fome da ONU.

Sabemos que a fome não é o único problema do país, mas acreditamos que é o mais grave e urgente. Não ter o alimento básico significa que todo o resto também lhe foi negado.

No Dia dos Pais, nenhum deveria passar pela horrível experiência de ver os filhos com fome e não ter condições de alimentá-los. No entanto, esta é hoje a realidade de milhões de pais e mães brasileiras.

Daniel Souza é presidente do conselho da ONG Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida

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