Quando os índios estavam acabando, os escravistas introduziram africanos nas colônias luso-americanas. Então, por três séculos, multidões de trabalhadores escravizados foram desembarcados nas costas do Brasil para forcejarem até a morte sob o látego impiedoso do mercado mundial.
Mal alojados, mal vestidos, mal alimentados, os cativos sequer tinham o direito de reproduzir-se. Até 1850, a África cedeu sem cessar seus filhos para alimentar o apetite insaciável do mundo colonial. O escravismo desconheceu a humanidade plena e os direitos mínimos dos cativos, subjugados a ferro e fogo.
Independência escravista
A independência brasileira foi a mais conservadora das Américas. Os grandes escravistas reprimiram o republicanismo, o federalismo e o separatismo regionais para assegurar a ordem negreira. As rédeas do imenso império, centralista e autoritário, foram entregues ao herdeiro da Coroa da qual o Brasil separava-se!
Na Colônia e no império, através da fuga, da rebelião, do justiçamento, da oposição ao trabalho, o cativo resistiu ao cativeiro pateticamente só. A rusticidade da produção escravista e o isolamento social dos trabalhadores escravizados impediam que a luta servil se elevasse à dimensão política.
Última nação escravista
Em 1888, a convergência do abolicionismo radical com a luta dos cativos pôs fim à escravidão, unificando o mundo do trabalho dividido entre homens livres e escravizados. Superando o escravismo colonial, a Abolição foi a única revolução social até hoje vitoriosa no Brasil.
Primeiro movimento social nacional, o abolicionismo via no fim da escravatura salto de qualidade necessário à refundação radical da sociedade que exigia a democratização da propriedade da terra.
República oligárquica
Coma Abolição, o centralismo imperial tornou-se anacronismo institucional. O golpe militar republicano de 1889 entregou o poder regional às oligarquias locais, silenciando as propostas de distribuição de terra entre ex-cativos e caboclos.
A República brasileira foi federalista e autoritária, nulamente democrática e popular. O elitismo, o racismo científico, o positivismo comtista, justificaram a marginalização das classes subalternizadas, elevadas formalmente à situação cidadã.
Difícil luta
Nos campos, nascida das comunidades indígenas destribalizadas e afro-descendentes desorganizados pela escravidão, desconhecendo sólidas comunidades camponesas, a civilização cabocla entranhava raízes superficiais no território que não coagulava seu trabalho pretérito. Nesse difícil universo, resistia dificilmente às oligarquias latifundiárias.
Nas cidades, um frágil operariado fabril regionalizado iniciou a difícil luta pelos direitos básicos e pela autonomia, cercado por imenso exército urbano e rural de desempregos para os quais a dura proletarização constituía melhores condições de trabalho e existência.
Dominados e dominadores
De 1930-1980, as diversas versões nacionais ou mundializantes do desenvolvimentista-burguês submeteram os trabalhadores urbanos à hegemonia das classes industriais, através do controle policial, do populismo, da esquerda colaboracionista.
Por longas décadas, os trabalhadores do campo foram mantidos à margem da legislação social, sob o tacão das oligarquias regionais. O operariado citadino e rural jamais alcançou a unificar seus destinos em projetos e organizações unitárias.
Bons velhos tempos
Há mais de vinte e cinco anos, o Estado nacional degrada as condições populares de existência, submetendo os trabalhadores a brutal expropriação dos frutos de seu trabalho, para remunerar incondicionalmente capital financeiro que consome com fome pantagruélica as riquezas da nação.
Hipérbole sinistra. No início do novo milênio, o Brasil retorna aos velhos tempos coloniais, quando, sob às ordens das elites metropolitanas, as elites tupiniquins feitorizavam sem piedade milhões de trabalhadores escravizados, pelas migalhas do esbulho horrível.
Aqui e agora
A dolorosa história do mundo do trabalho no Brasil possui sua unidade na ininterrupta expropriação do esforço popular direto. Constatação incontornável. Eterno país do futuro, 503 anos após a Descoberta, somos população de desempregados, de mal-pagos, de sem terra, de banguelas, de famintos, de incultos.
A ascensão dos trabalhadores brasileiros ao exercício real dos direitos cidadãos será alcançada através da construção de esferas crescentes de poder popular - político, social, econômico, ideológico, cultural, etc...
Esse processo nascerá da mobilização uitária dos trabalhadores rurias e urbanos para a conquista incondicional de suas reinvindicações materiais e espirituais, num aqui e agora da vida quotidiana que rompa coma negação cabal, no passado, e com o reconhecimneto retórico, no presente, de direitos sempre postergados para futuro que jamais se materializa. A cidadania encontra-se na ponta do poder.
Mário Maestri, 55 anos, é gaúcho e historiador. É autor entre outros, de O escravismo no Brasil, 11 ed. São Paulo: Atual, 2002; Belo Monte: uma história da guerra de Canudos. 3 Ed. São Paulo: Moderna, 2002. [Com J.R. Macedo]