cidadania em acao

  Centro Cultural da Ação da Cidadania

  Natal sem Fome

  Espaço de Contrução da Cultura






 

Incentivo à Leitura e formação de plateia: o Sarau Providencial e o Cineclube Morro da Providência

João Guerreiro







  Ação e reação contra a miséria

A luta contra a miséria tem uma dupla dimensão, emergencial e estrutural. A articulação entre essas duas dimensões é complexa e cheia de astúcias. Atuar no emergencial sem considerar o estrutural é contribuir para perpetuar a miséria. Propor o estrutural sem atuar no emergencial é praticar o cinismo de  curto prazo em nome da filantropia de longo prazo.

Quando um país chega ao ponto do Brasil e tem um terço na pobreza absoluta e metade desse terço na indigência, a questão fica ainda mais dramática porque na verdade se trata de dar um peso muito grande ao emergencial (comida para quem tem fome aqui e agora), ao mesmo tempo que se deve atacar as questões estruturais: retomada do crescimento, combate à inflação, geração de emprego, reformas da terra, da política industrial, educacional, tecnológica e, particularmente, reforma e democratização do Estado.

A luta contra a miséria é também essencialmente uma questão ética e política. Ética porque a miséria não cai do céu como um fenômeno natural, como se fora um vírus que ataca determinadas sociedades do terceiro mundo. Ela é produzida por uma determinada sociedade em um determinado tempo e por grupos dirigentes com nome e apelido que, até prova do contrário, têm consciência do que fazem.

A pobreza no Brasil veio de longe, junto com os colonizadores, desenvolveu-se com as oligarquias locais e se agravou com as chamadas elites dominantes atuais: os grandes proprietários de terra, oligopólios industriais, comerciais, financeiros nacionais e internacionais. Desenvolveu-se também com a cumplicidade das chamadas classes médias que, espremidas entre senhores e escravos, não vacilou em cair para cima e também com a resignação de uma grande parcela de oprimidos que buscou se acomodar à exclusão, temendo as conseqüências da revolta.

Agora que a miséria agride a senhores e filhos da classe média, saqueia supermercados, seqüestra empresários e milionários, assalta quem anda nas ruas, assusta, cresce, arrasta banhistas nas praias, agora que seu número atinge a casa dos milhões, o país se pergunta o que fazer com isso.

Alguns propõem a pena de morte, outros o controle da natalidade e a esterilização em massa (que aliás em grande medida já foi feita), outros a organização da violência policial contra a miséria ou o apartheid social consagrado em política econômica.

O segundo vai depender da ação da sociedade civil. De ela acreditar efetivamente na sua capacidade, iniciativa, na força de suas idéias, projetos e valores, na força de sua ética e de sua energia política. Se a Ação da Cidadania for capaz de criar comitês em todas as cidades e mobilizar a energia que existe latente ou ativa em cada pessoa, entidades, projetos, propostas, o Brasil corre o risco de ficar diferente para sempre. De virar um país de gente onde não exista mais a fome, a miséria, onde haja escolas para todas as crianças, trabalho para todos, casas e saneamento básico, saúde, cultura, futuro, perspectivas, solidariedade, prazer de existir e morar nesse lugar e tempo que a história nos destinou. Na sua capacidade de gerar a democracia.

É isso que a Ação da Cidadania pretende: erradicar a miséria e gerar uma nova sociedade.

Em nome do combate à inflação já se praticaram todos os crimes nesse país, nunca se acabou com a miséria e a renda sempre se concentrou de forma absoluta ou relativa. Hoje existem países sem inflação e com miséria e países com miséria e inflação.

Mas no Brasil de hoje trata-se efetivamente de combater a miséria, voltar a crescer, redefinir o desenvolvimento para que exista sem exclusão, sem a inflação que nada mais é do que a redistribuição perversa da renda contra os que vivem de salário. Para isso é fundamental pensar no curto e no longo prazo, na produção e não na especulação, na ciência e na tecnologia que busquem gerar empregos, aumentar a produtividade e ampliar a qualidade das relações de trabalho. É fundamental voltar a pensar na educação, na cultura e no próprio sentido da vida de todos nós. Mas para isso é indispensável matar a fome de quem tem fome e atender a urgência de quem não consegue mais sobreviver como gente.